A GERAÇÃO PROFISSIONAL PÓS-CRISE:
NOVO DESAFIO NA GESTÃO DE PESSOAS
Floriano Serra*
Profissionais e empresas agora respiram um pouco mais aliviados:
a famigerada crise já dá sinais de estar sendo vencida, embora não na
velocidade e na dimensão que todos gostariam. Ainda é pouco, mas, diante das
catastróficas previsões que foram feitas no seu auge, nos primeiros meses do
ano, já é um bom motivo para se acreditar que o pior já passou e que a vida
continua como antes.
Muitas sequelas emocionais – além das financeiras - ficaram e
vão continuar por algum tempo. Empregos foram perdidos, oportunidades foram
deixadas de lado, planos e projetos foram adiados e muitas empresas, se não
fecharam, tiveram seus alicerces comprometidos e perderam a solidez de
antes. Há, agora, para todos, um longo e difícil caminho de recuperação –
certamente possível, mas nem por isso mais fácil.
No caso específico das demissões, cabe aos principais gestores
das empresas uma cuidadosa reflexão a respeito. Há casos em que ocorreram
precipitações e excessos nas decisões. Muitos profissionais dedicados,
comprometidos e talentosos foram dispensados aos milhares, em nome de uma -
às vezes discutível - redução de custos. Nem todas as empresas que fizeram
demissões, procederam de forma planejada ou negociada. De qualquer forma, o
leite já foi derramado e, neste momento, a questão é saber como vai ser o
"dia seguinte" – ou seja, o hoje.
Antes da crise, muitas empresas vinham desenvolvendo excelentes
programas voltados para a melhoria do clima interno, com ótimas políticas de
integração, motivação, comunicação, saúde, qualidade de vida, benefícios e
outros. De repente, veio a crise e o sonho acabou – ou foi drasticamente
interrompido. Para as empresas, vendas e produção caíram e, como
conseqüência, os resultados finais seguiram o mesmo caminho. Os funcionários
viram seus colegas perderem os empregos, assistiram desconsolados a
suspensão ou cancelamento dos programas de melhoria do clima e qualidade de
vida e alguns até negociaram para baixo seus salários para manter o emprego.
Que conseqüências comportamentais pode-se esperar de tudo isso?
A insegurança permanece entre os profissionais, porque há o natural receio
de que a crise ressurja forte como no começo. E, se isso acontecer, quem
serão os próximos "sacrificados"? Se, no auge da crise, profissionais tão
dedicados e competentes saíram, por que não sairia quem ficou e achava que
tinha escapado? Quais os critérios que, na crise, foram adotados para
escolher os demitidos? E quais serão adotados se a empresa precisar
"enxugar" ainda mais seus custos? Contarão pontos a lealdade, o
comprometimento, a dedicação, o tempo de casa, os bons serviços prestados,
os ótimos resultados atingidos no passado? Deve haver funcionários se
perguntando: por que a empresa mandou "fulano" embora, se era tão
competente? Por que não mandou o "sicrano", que é notoriamente menos capaz?
Essas são feridas que precisam ser tratadas daqui para frente e
cabe às empresas que fizeram demissões refletir a respeito e avaliar se
existem tais feridas na sua estrutura, no seu clima interno. Para consolidar
a vitória definitiva sobre a crise, não convém a nenhuma empresa conviver
com um ambiente de desconfiança, insegurança e ressentimentos. Onde houver
sequelas, será preciso recuperar a amizade, a admiração, a confiança, o
comprometimento de toda a equipe. Precisará ser feito um pacto sincero,
profissional, positivo, consistente de "começar de novo".
Este será um trabalho delicado, mas fundamental. Um trabalho
transparente e convincente de diálogo, feito por profissionais qualificados
e experientes, capazes de interagir e estabelecer empatia com todos os
colaboradores para entender as razões dos sentimentos e expectativas de cada
um. Não se trata de justificar as demissões, mas de esclarecer as causas
globais da crise, a situação em que a empresa ficou, as consequências
naturais e a necessidade de medidas de sobrevivência geradas a partir daí. É
indispensável que esse trabalho seja focado nas novas atitudes, condutas e
políticas que passam a ser necessárias, daqui para frente, para a empresa
retomar o crescimento anterior. Mas para que esse trabalho atinja o efeito
desejado, é preciso que haja credibilidade e boa vontade em todo o processo.
Recuperar confiança é muito mais difícil do que inspirá-la.
Acredito que muitas empresas e profissionais compartilharão
desta nova preocupação com a relação ao capital / trabalho pós-crise e
tratarão de fazer o que deve ser feito. Mas poderá haver quem não a ache
relevante – e nada farão a respeito. A meu ver, a opção por qualquer uma
dessas duas posturas fará toda a diferença do mundo para a empresa que
pretenda voltar a crescer. Como em tudo na vida, aqui também é uma questão
de escolha.
* Floriano Serra é psicólogo, consultor e palestrante, presidente da
SOMMA4 Projetos em Gestão de Pessoas. É autor de vários livros e inúmeros
artigos sobre o comportamento humano. Ex-diretor de Recursos Humanos e
Qualidade de Vida de empresas nacionais e multinacionais.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
A GERAÇÃO PÓS-CRISE: NOVO DESAFIO NA GESTÃO DE PESSOAS
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